Como funcionam os testes para diagnóstico do Covid-19

07.05.2020

O diretor médico do Richet Medicina & Diagnóstico, Dr. Helio Magarinos Torres Filho, explica como funcionam os testes laboratoriais para diagnóstico do Coronavírus.

 

Existem atualmente dois tipos de testes para o diagnóstico de infecções pelo SARS-Cov-2, agente responsável pela Covid-19.

 

1. Pesquisa do RNA do SARS-Cov-2 por RT-PCR

  • 1.1 Como o teste é feito?

Trata-se de um teste no qual é pesquisado a presença de fragmentos genéticos do vírus em secreções respiratórias, através de uma técnica chamada de PCR (sigla em inglês para Reação em Cadeia de Polimerase) RT (Transcrição Reversa), por biologia molecular.

 

  • 1.2 Como é feita a coleta da amostra?

As amostras são coletadas através da introdução de um cotonete especial (zaragatoa) ou “swab” (nas narinas, atingindo a Nasofaringe, parte posterior da cavidade nasal). A coleta é indolor, mas pode causar algum desconforto ao atingir o local.

 

  • 1.3 Por que a coleta era feita através do nariz e garganta e agora só é feito através do nariz?

Estudos mostram que a coleta através da Nasofaringe apresenta maior sensibilidade do que a coleta em Orofaringe, não sendo necessário a coleta dupla¹ ³.

 

  • 1.4 Quem deve realizar o teste?

O teste deve ser realizado em pacientes sintomáticos ou que tenham sido expostos de forma contínua a contato comprovado de pessoas com Covid-19, há menos de 7 dias. Ou ainda, pacientes hospitalizados ou em vias de se hospitalizarem com suspeita de covid-19 e profissionais de saúde que foram submetidos à exposição com pacientes infectados.

 

  • 1.5 Quando o exame deverá ser realizado?

O período em que o teste se mostra mais sensível vai do 3º ao 7º dia após o início dos sintomas, atingindo o seu pico por volta do 5º dia.

 

  • 1.6 O teste pode ser feito em assintomáticos?

Em casos em que houver forte suspeita de contaminação, principalmente em pessoas de maior risco (idosos e/ou com comorbidades como doenças crônicas, o teste pode ser realizado, de preferência em período inferior a 7 dias após o contato. Em profissionais de saúde, dependendo da rotina do serviço, o teste pode ser realizado de forma periódica.

 

  • 1.7 Como interpretar os resultados?

Um resultado DETECTADO significa a presença de fragmentos do vírus na amostra e que a pessoa está infectada pelo vírus SARS-Cov-2. Este resultado pode aparecer mesmo antes do aparecimento de sintomas ou depois de os sintomas já terem desaparecidos. Este resultado não significa necessariamente que a pessoa está doente e, por este motivo, deve ser interpretado em conjunto com outros dados clínicos e/ou exames, exclusivamente por um médico ou profissional habilitado.

Um resultado NÃO DETECTADO significa que não foi possível detectar a presença do vírus na amostra. Em casos em que persistir a suspeita clínica, através de sintomas característicos ou outros dados, como exames sugestivos, o teste deve ser repetido em período superior a 24 horas. Se mesmo assim continuar Não detectado e a suspeita clínica permanecer, pode-se realizar um novo teste e/ou associar com o teste de pesquisa de anticorpos (sorologia) e continuar a monitorar, a critério médico.

 

  • 1.8 Podem ocorrer resultados falsos-negativos ou falsos-positivos?

Os resultados falsos-negativos podem ocorrer em cerca de 10% a 20% dos casos, dependendo principalmente do período e da forma como a amostra é coletada, manipulada e armazenada. Em casos de permanência da suspeita clínicas, novo teste deverá ser realizado, a critério médico.

Resultados falsos-positivos podem ocorrer, mas são raros e devido a procedimentos técnicos que podem levar à contaminação acidental da amostra. Em casos de dúvidas clínicas, novo teste deverá ser realizado, a critério médico.

 

  • 1.9 Existe teste RT-PCR rápido? Qual a diferença para o teste tradicional?

Recentemente foi introduzio o teste Xpert Xpress (Cepheid, EUA), que proporciona resultados de RT-PCR em até 24 horas, após a introdução da amostra no equipamento. Estudos¹º ¹¹ ¹² demonstram que a performance deste teste em comparação com outros testes comerciais é semelhante. A solicitação do teste deve ser feita de forma distinta, como Xpert Xpress ou GeneXpert para SARS-CoV-2.O teste deve ser indicado para casos em que existe uma justificativa clínica para a obtenção de resultados mais rápidos, como pacientes hospitalizados ou que necessitem de procedimento hospitalar e grupos de maior risco, como idosos, portadores de doenças crônicas, etc.

 

Leia também:

 

2. Exames para detecção de Anticorpos para SARS-Cov-2 (covid-19)

  • 2.1 Como funciona o teste?

O teste detecta a presença de anticorpos específicos contra o vírus da covid-19 no sangue. Esses anticorpos são produzidos em função de defesa do organismo contra um agente invasor.

 

  • 2.2 Quais tipos de testes se encontram disponíveis?

Três tipos diferentes de testes se encontram disponíveis. Imunocromatografia, também conhecido como testes rápidos, Enzima Imunoensaio (EIA) e Imunoensaio por Quimioluminescência (CMIA). O primeiro pode ser feito através de sangue capilar, coletado com uma lanceta e obtenção de gotas de sangue. Os outros dois, EIA e CMIA são realizados em amostras de sangue, coletadas por punção venosa em tubos específicos.

 

  • 2.3 Quais as diferenças entre os testes?

Estudos demonstram(4) que os testes EIA e CMIA se mostram mais sensíveis e específicos (menos reações cruzadas) do que os testes rápidos; além também de apresentarem resultados quantitativos, que fornecem dados adicionais para a interpretação dos resultados.

 

  • 2.4 Quem deve fazer o teste?

O teste é indicado para quem já teve sintomas característicos e/ou exame de PCR positivo e também para quem esteve exposto de forma continuada a pessoa sabidamente infectada pelo vírus. Profissionais de saúde se enquadram bem no último caso.

 

  • 2.5 Quando o teste deve ser realizado?

Os anticorpos começam a ser detectados no sangue a partir do 7º dia após o início da sintomatologia, mas a maior sensibilidade só é atingida entre o 10º e após o 14º dia. Em casos especiais, quando se precisa da definição do diagnóstico que não pôde ser feita através do PCR,o teste pode ser realizado no início da doença, antes do 7º dia, mas um resultado negativo não pode afastar a possibilidade e resultados infecção, pois a sensibilidade neste período é baixa.

 

  • 2.6 Como interpretar os resultados?

Um resultado NÃO REAGENTE significa ausência de anticorpos específicos para covid-19. Este resultado deve ser correlacionado com o período em que a amostra foi coletada e também com outros exames e dados clínicos. Na maioria dos casos ocorre positividade a partir do 14º dia após início dos sintomas ou exposição de risco. Em alguns casos pode haver maior prazo para a formação de anticorpos e é recomendado a realização ou repetição do teste após o 21º dia do início dos sintomas, sendo mais frequente em quem teve sintomas leves ou permaneceu assintomático(5).

Um resultado REAGENTE deve ser interpretado como positivo para a presença de anticorpos específicos para covid-19. Este resultado também deve ser correlacionado com outros exames e dados clínicos. Em pessoas que tiveram comprovação da infecção através de um resultado de PCR positivo no início da doença, o resultado está em acordo com o esperado. Podem ocorrer resultado positivos em quem não teve sintomas? Sim, pode, mas é pouco frequente(6), sendo mais frequente em pessoas que tiveram exposição de risco continuada, como profissionais de saúde.

 

  • 2.7 Podem ocorrer resultados falso-negativos ou falso-positivos?

Sim, tanto resultados falso-negativos, assim como falso-positivos podem ocorrer, apesar de não ser frequente. Por este motivo, é importante que os resultados sejam interpretados por um profissional habilitado, de preferência médico.

 

  • 2.8 Um resultado REAGENTE significa que a pessoa está imune e protegida?

Não existem ainda dados concretos em estudos que possam afirmar isso, mas os indícios sugerem que sim(7), as pessoas podem estar imunes para reinfecções, mas não se tem determinado o período correto em que a imunidade pode permanecer. Portanto, é recomendado que, mesmo com um resultado reagente, a pessoa não deixe de utilizar os hábitos e medidas de proteção individual e coletiva.

 

  • 2.9 Como interpretar resultados de PCR que permanecem positivos por maior tempo do que o usual?

Em alguns casos, os resultados de PCR podem permanecer positivos por maior período de tempo. Não se sabe ao certo o significado desses resultados em pessoas que já não apresentam sintomas há pelo menos 3 dias. Existem estudos3 que sugerem que possa se tratar de fragmentos virais residuais, sem atividade e, portanto, não mais transmissíveis, mas não temos ainda dados concretos que possam garantir esta hipótese. Nestes casos, é ainda recomendável a manutenção das medidas de prevenção de contágio. A utilização da pesquisa de anticorpos também pode ser útil, pois a probabilidade de uma pessoa assintomática que tenha a presença de anticorpos do tipo IgG continuar a transmitir o vírus é baixa, apesar de não completamente descartável.

 

Resumo interpretativo dos resultados

 

 

 

 


Observações

   

1

Dependendo do período em que as amostras foram coletadas ou de outros dados clínicos, poderá ser repetido a critério médico

2

Pode acontecer em fases mais tardias da doença, dependendo de outros dados clínicos. Nestes casos é recomendado a repetição em período maior que 7 dias

3

Recomendado a repetição dos testes em período maior que 7 dias para verificar aparecimento de anticorpos IgG

4

Os anticorpos IgM podem permanecer positivos por período mais prolongado em alguns casos. A presença de anticorpos IgG é mais importante nestes casos

5

Se não tiver tido resultado de PCR positivo ou sintomatologia característica, nem histórico de exposição de risco, a hipótese de falsa reatividade deve ser aventada

6

Recomendado a repetição dos testes em período superior a 7 dias para verificar aparecimento de anticorpos IgG. Se não houver positividade para IgG a hipótese de falsa reatividade deve ser aventada

7

Provável infecção fase mediana ou tardia. Se não houver correlação clínica sugestiva com covid-19, a possibilidade de reatividade cruzada deverá ser aventada

 

Gráfico ilustrativo sobre a dinâmica dos testes para covid-19(9)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas:
  1. Wan, W, Xu, Y, Gao R, Lu R, Han K, Wu G, Tan W, Research Letter, JAMA on line, 11 March 2020
  2. Xu k et al, Factors associated with prolongated RNA COVID-19, Factors associated with prolonged viral RNA shedding in patients with COVID-19, Academic Ouput.com, 2020
  3. Long Q-X et al, Antibody responses to SARS-CoV-2 in patients with COVID-19 , Nature Medicine Brief Report, 2020
  4.  Montesinosa I, Grusonb D, Kabambac B, Dahmaa H, Van den Wijngaerta S, Rezac S , Carboneb V, Vandenbergd O, Gulbise B, Wolfff F, Rodriguez-Villalobosc H, Evaluation of two automated and three rapid lateral flow immunoassays for the detection of anti-SARS-CoV-2 antibodies, J Clin Virol, 128 (2020) 104413. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7198434/
  5. Lou B, Li T-D, Zheng S-F, et al. Serology characteristics of SARSCoV-2 infection since exposure and post symptom onset. Eur Respir J 2020; in press (https://doi.org/10.1183/13993003.00763-2020).
  6. Kortha J, Wildea B, Dolffb S , Anastasiouc OE, Krawczykb A, Jahna M, Cordesd S, Rosse B, Esserf S, Lindemanng M, Kribbena A, Dittmerc U, Witzkeb O, Herrmannc A, SARS-CoV-2-specific antibody detection in healthcare workers in Germany with direct contact to COVID-19 patients, J Clin Virol 128 (2020) 104437 https://doi.org/10.1016/j.jcv.2020.104437
  7. Bao L, Deng W, Gao H, Xiao C, Liu J, Xue J, Qi L, Liu J, Yu P, Xu Y, Qi F,  Li F, Xiang Z , Yu H, Gong S, Liu M, Wang G, Wang S, Song Z , Liu Y, Zhao W, Han Y, Zhao L, Liu W, Wei1 Q, Qin C, Lack of Reinfection in Rhesus Macaques Infected with SARS-CoV-2, BioRexiv 2020  https://doi.org/10.1101/2020.03.13.990226
  8.  Bullard J, Dust K, Funk D, Strong JE, Alexander D, Garnett L, Boodman C, Bello A, Hedley A, Schiffman Z, Predicting infectious SARS-CoV-2 from diagnostic samples, Clin Inf Dis, 22 May 2020, https://doi.org/10.1093/cid/ciaa638
  9. Dias VMCH, Carneiro M, Vidal CFL, Corradi MFDB, Brandão D, Cunha CA, Chebabo A, Oliveira PRD, Michelin L, Rocha JLL, Waib LF, Carrilho CM, Lobo SMA, Oliveira MC, Nunes RR, Diego LAS, Santos AS, Muglia V, Souza Jr AS, Escuissato D, Neto CA, Chatkin JM, Martins R, Maurici R, Costa SF, Alves JS ,Nascimento MM, Moura-Neto JA, Orientações sobre Diagnóstico, Tratamento e Isolamento de Pacientes com COVID-19, J. Infect. Control, 2020 Abr-Jun;9(2):XX-XX [ISSN 2316-5324], http://jic-abih.com.br/index.php/jic/article/view/295
  10. Lieberman JA, Pepper G, Naccache SM, Huang M-L, Jerome KR, Greninger AL, Comparison of Commercially Available and Laboratory Developed Assays for in vitro Detection 2 of SARS-CoV-2 in Clinical Laboratories, J. Clin. Microbiol. doi:10.1128/JCM.00821-20,   https://jcm.asm.org/content/early/2020/04/27/JCM.00821-20
  11. Loeffelholz MJ, Alland D, Butler –Wu SM, Pandey U, Perno CF, Nava A, Carroll, KC, Mostafa H, Davies E, et al, Multicenter Evaluation of the Cepheid Xpert Xpress SARS -CoV -2 Test, J. Clin. Microbiol. doi:10.1128/JCM.0092620,   https://jcm.asm.org/content/jcm/early/2020/04/30/JCM.00926-20.full.pdf
  12. Lowea CF, Matica N, Ritchiea G, Lawsona T, Stefanovica A, Champagnea S, Leunga V, Romneya MG, Detection of low levels of SARS-CoV-2 RNA from nasopharyngeal swabs using three commercial molecular assays, J Clin  Virol 128 (2020) 104387, https://doi.org/10.1016/j.jcv.2020.104387

 

 

 

 

 

Autor

Dr. Helio Magarinos

Diretor Médico      CRM 52.47173-0

Diretor do Richet Medicina & Diagnóstico, Helio Magarinos Torres Filho é Médico formado pela Universidade Federal Fluminense, especializado em Patologia Clínica e Medicina Laboratorial e possui MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC. Helio Magarinos também é Membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clinica (SBPC), da American Association for Clinical Chemistry (AACC), da American Society for Microbiology (ASM), da American Molecular Pathology (AMP) e da European Society for Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID).